30
Jan , 2017

Na fuga do olhar


Categoria: Textos
A mesma pergunta de sempre, é melhor fugir ou encarar?

Eu desviei o olhar pela terceira vez naquela noite. Não era possível que ele estivesse me olhando daquele jeito, não agora, não depois de tanto tempo. Não com essa mesa cheia de gente conhecida. Aliás, será que alguém mais está percebendo? Não, não deve estar... Deve ser coisa da minha cabeça.


Olho para baixo e tiro meu celular novamente, e peço aos céus que tenha uma longa e desesperadora mensagem de uma amiga. Sabe aquelas mensagens que você precisa de muito tempo e concentração para responder? Dependendo o nível da situação e desespero devo mandar um áudio, isso! Perfeito motivo para sair da mesa, atender um desesperado e ávido pedido de ajuda. Olho a tela, nada de notificações, entro para conferir. Nada. Óbvio, é quinta-feira, véspera de feriado, quem precisaria da minha ajuda, não é mesmo? Minhas amigas devem estar a caminho da praia, no avião para algum destino da América do Sul, no Rio de Janeiro curtindo algum baile funk carioca, ou em casa assistindo os novos episódios de Gilmore Girls no Netflix. Desligo o celular, não adianta continuar olhando, não há nada para fazer. Se ao menos eu jogasse candy crush, poderia atribuir meus olhos colados na tela ao vício, mas nem isso tenho como desculpa.


Guardo finalmente o aparelho na bolsa e como em um imã olho pra ele de novo, ele está sorrindo, e me olhando e sorrindo e me olhando, e não tem combinação mais exata do que essa para me fazer estremecer as pernas. Eu lembro dos nossos primeiros olhares. O seu como sempre esverdeado, vivo e lindo, o meu como sempre tímido, acuado e sem coragem. Você com aquela fama de "garanhão" da empresa, o homem que faz e acontece. Sempre rodeado de amigos, sempre cheio de piadas, sempre arrancando sorrisos dos caras e suspiros das mulheres. Não de mim, óbvio. Meu olhar escondido atrás desses óculos de grau modelo ultrapassado fugia do seu, um aceno rápido, seguido de um sorriso falso. E você sempre tentando ser simpático, e eu sempre sendo eu mesmo. Eu fujo dos olhares, está aí uma das minhas mais fortes características, essa covardia de olhar. Sou assim com o chefe, com meus amigos, mas com você isso se multiplicava a um nível absurdo. Tinha a sensação que se eu te olhasse eu iria te querer, e te desejar não podia fazer parte da minha monótona vida.


Desejar o que não se tem - Platão define assim o amor platônico. E eu não poderia colecionar mais uma dessas experiências irreais. Convenhamos é ótimo se iludir aos 12 com o menino da rua, aos 15 com o amigo do irmão mais velho. Mas aos 25? Dá licença né, não é hora.


Mais um combo de cerveja chega à mesa. Ah não. Bendita hora que aceitei esse happy-hour, e dai que batemos a meta? Eu não quero comemorar nada eu quero é escapar daqui. Quero fugir dele, e desse olhar de quem está prestes a "dar o bote". Se eu retribuir, eu sinto que esse "bote" pode é afundar a qualquer momento. Tento me distrair com um gole aqui, uma batata-frita aqui, um bolinho de bacalhau ali, lembro das calorias que vou ter que atualizar no aplicativo e quase choro de arrependimento. Pelo menos, serviu para pensar em outra coisa. De repente ouço risadas altas no outro canto da mesa, perdi a piada (para variar), e óbvio que era ele o autor. O encaro pela nona vez naquela noite e agora pela primeira vez, por um motivo que desconheço, eu ouso sorrir, e ele sorri de novo. Eu não sei quantos segundos se passaram, mas sei que eles foram eternos, e únicos e inesquecíveis. Parei o tempo, a mesa, esqueci a batata – frita, as calorias os outros e aquela vontade de fugir. Eu queria mesmo era estar ali dentro daquele olhar. Meu Deus, como eu queria.


Meu celular vibra, me sobressalto. Acho que preciso atender, saio da mesa e desastradamente viro cerveja no meu colega de trabalho - Chapolin mora em mim - só pode. Ele faz sinal que tudo bem, e saio mais vermelha que um pimentão atender a chamada. Era minha mãe, não tinha entendido a minha mensagem e já estava achando que eu tinha sido sequestrada. Normal, respondi calmamente (ou pelo menos tentei). Desliguei, estava com a mão suja de cerveja. Adivinhem né? Causado pelo desastre do último momento na mesa. Resolvo passar no banheiro antes de voltar.


No espelho enquanto tento arrumar esse cabelo desajeitado - lembro daquele olhar, e como ele foi capaz de me fazer sorrir em minutos. E ainda me fez retribuir. Eu nem acredito, eu que passo a vida olhando pelos cantos, que tenho uma vida amorosa representada pelo 7x1 - no caso eu sendo o Brasil, obviamente. Enfim, hora de encarar aquela mesa novamente. Hora de sair do banheiro antes que pensem que eu estou com dor de barriga. Será que ele ainda está por lá? Deixa de ser idiota, bastou um olhar pra que? Vai dizer que agora quer bater um papo? Você não vai conseguir.


Eu destravo a porta e quando saio olhando para baixo esbarro em alguém que desequilibra e quase cai. Aí não outro desastre para o currículo desta noite.


- Tá vendo, isso que dá andar sempre com a cabeça baixa.


Mas oi? Que atrevido! Quem ele pensa que é!


Quando vou responder paro todo meu corpo, e meu olhar encontra o dele e agora pela décima vez naquela noite.


Olhamos. Sorrimos. Paramos. Ele segura minha mão e fala: - Eu vim atrás de você.


Respondo com olhar de interrogação, e ele mais uma vez me surpreende:- Sim, eu vim atrás de você e desta vez você não vai fugir!


E nos olhamos de novo, e sorrimos de novo.


E pela primeira vez eu não iria fugir, eu não podia e nem queria mais escapar.



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Nathalie Maia


Jornalista, produtora e social media - Seja bem-vindo ao nosso infinito!

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Danniele :
 Muito bom!! Super me indentifiquei!! A parte de registrar as calorias no aplicativo foi d+ ...Ri alto
Milena :
 Meu preferido!!! Rs =)
Nadir Teixeira da Luz :
 Amei o clima de sedução e timidez... Muito envolvente.

Nathalie Maia


Jornalista por formação e contadora de histórias por vocação. São raros os dias em que um bom enredo não passa na sua cabeça. Apaixonada por um bom roteiro, de fi...

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