30
Jan , 2017

Mas vocês nasceram um para o outro


Categoria: Textos
A eterna dúvida entre o será e o talvez

Eu não sei por onde começar, eu acho que não queria estar aqui, mas estou pela terceira vez. Não sei quem inventou esse lance de “encontro as escuras”, só sei que se eu já achava a ideia absurda antes, depois de viver a experiência achei mesmo tenebrosa. Mas minhas amigas insistiram tanto, e como sempre me venceram na boa e velha lábia.


- Você só tem tempo para o trabalho - Você mal olha para o lado, como é que vai reparar em alguém? - Tá querendo que o Príncipe encantado venha te buscar de cavalo branco, na porta do escritório? Ok, este último argumento realmente me convenceu. Eu aceitei o pedido das malucas, afinal querendo ou não elas me conhecem desde os meus oito anos de idade. No fundo em alguns (digo em alguns) pontos elas têm razão mesmo.


Eu cansei um pouco dessa vida de buscar e tentar e querer alguém. Já usei todos os métodos que conheço, fui para muita balada regada a sertanejo, pagode, Vodka (sem água de coco). Já passei dois carnavais em Salvador, já frequentei muito churrasco na faculdade, muito happy-hour, barzinho com amigos e colegas de trabalho. Já zerei o Tinder (não tem mais ninguém que me interesse lá não gente, acreditem!)


Enfim, no fundo eu acho que estou bem cansada das primeiras conversas, da imposição social de que “a primeira impressão é a que fica”, de tentar ser o que não sou, perguntar coisas que não quero, e responder o que tenho menos vontade ainda. “Aonde você estudou?”,  “no que trabalha”, “mora com os pais?”. Que preguiça!  E acho que isso ajudou no fracasso nos dois últimos encontros dos sábados anteriores, o primeiro deles era amigo do namorado da minha melhor amiga (deu pra entender?), ele tinha me visto em algum aniversário, e comentou com ela. Ela achou que a gente tinha “tudo a ver”, dois advogados, já na carreira com gostos semelhantes, e segundo o radar stalker da Vanessa, ele até tinha feito intercâmbio na mesma cidade que eu nos Estados Unidos. Minha amiga investiu no Marketing pesado do candidato dela, falando que ele defende causas importantes, é super viajado, gosta de música e museus como eu. Ual!!!Que bom currículo por aí hein?


Que fiasco, o cara até era tudo isso, mas chegou se achando a última trakinas do pacote, acho que na cabeça dele eu era uma desesperada atrás de homem, e ele o único na lista de sobreviventes do Titanic que poderia me querer (talvez, até fosse naquele momento, mas deixa pra lá). Que noite terrível. Não sei nem como, depois do pesadelo, eu aceitei estar lá no segundo sábado, com o outro “pretendente” (que palavra mais velha, ainda se usa isso?). Era lindo, educado e sorria com covinhas maravilhosas. Fiquei meio sem ar quando o vi entrar. A Andreia, minha amiga o conheceu na academia, era personal trainer. Eu insisti em dizer que um comedor de Whey Protein com uma sedentária com kilos a mais feito eu, jamais dariam um match.


Mas ela garantiu que ele amou minha foto (no facebook, a gente capricha né, pessoal). A noite foi ótima até o momento em que ele de maneira machista insinua que eu só estava ali por falta de sexo. Não, peraí eu ouvi direito? Não sei como e nem quero saber, minha amiga deixou sair uma intimidade dessas, e ele por conta disso achou que eu só estava ali para um sexo casual (nada contra, inclusive), mas respeito, por favor.


Saí, eu não queria mais saber dessa ideia descabida, não daria certo. Mas minha terceira grande amiga ficou enciumada e disse que ela tinha certeza que desta vez tudo seria diferente. A Karina é a mais centrada de todas as minhas amigas, ela era muito responsável desde ultra jovem, e sempre tinha um bom conselho. Eu falei que iria ao tal encontro, mas se primeiro eu pudesse stalkear o candidato, pelo menos olhar as redes sociais pra ter certeza que não estou saindo com nenhum prepotente, machista ou até coisa pior, sabe se lá o que poderia aparecer, não é mesmo?


Para minha surpresa, ela disse: não precisa, você já conhece bem o seu date. Fiquei confusa, e quando ela me disse o nome, eu pouco acreditei. Ele era incrível, eu não precisava de facebook, ou encontro para saber. Ele sempre rondou meus pensamentos quando mais nova, era uma mistura de admiração com paixão platônica mesmo. Era uns 2 anos mais velho do que eu, e fazia faculdade com o então namorado e hoje marido da Karina, as vezes ele aparecia em alguma festa e nos trocávamos cerca de quatro palavras, eu tremia as minhas pernas e ele era sempre muito requisitado. Minhas amigas diziam que a gente tinha muitas semelhanças, eu não encontrava. Ele era bem seguro de si, já tinha emprego, era amoroso com a família e fazia o trabalho voluntário dos meus sonhos.


Mas ele tinha ido embora e já estava em Dublin há quatro anos, eu nem sabia que ele tinha voltado. Aliás, ele voltou? Ou tá só de férias? Karina, você não ta me empurrando pra alguém que vai morar do outro lado do mundo né?


- Relaxa, ele tá aqui e ele quer te ver.


Até parece sonho, no final das contas eu estava ali pela terceira vez, e agora com a certeza de que não seria ruim. Faz pouco mais de uma hora que ele chegou, e já estamos na segunda garrafa de vinho, falamos sobre muito e tudo, sobre o tempo que passou, sobre o que falaram para a gente a vida toda. Eu não sei se nascemos um para o outro, mas depois dessa noite, eu to é com muita vontade de descobrir.



Nathalie Maia


Jornalista, produtora e social media - Seja bem-vindo ao nosso infinito!

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Nathalie Maia


Jornalista por formação e contadora de histórias por vocação. São raros os dias em que um bom enredo não passa na sua cabeça. Apaixonada por um bom roteiro, de fi...

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