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Fev , 2017

E se cartas chegassem ao seu destino?


Categoria: Textos
Como saber o que seria diferente?

Ela tinha 12 anos quando fez isso pela primeira vez. Não que tenha acontecido outras, quer dizer, não houve nenhuma além desta.Suas mãos tremiam tanto que não conseguia escrever na folha de papel decorada. Mas como mandar uma carta, se não conseguia nem firmar o pulso para segurar uma caneta?


Ah, nessas horas que existem as amigas. Mariana, ou apenas Mari, era aquela amiga tão mais experiente que ela. Não que fosse completamente difícil, já que nessa altura aquele era ainda seu primeiro amor, e ela sequer tinha dado seu primeiro beijo. Ser tímida, usar um aparelho conhecido como “freio de burro”, contribuíam para que nada fosse pra frente na sua vida amorosa. Nessa hora ter uma amiga como a Mari, ajudava, ela era linda, loira de olhos verdes, tinha 15 anos e obviamente um namorado, tinha experiência com relacionamentos além de um simples beijo, (se é que vocês me entendem). E melhor de tudo, não a julgava, por ser uma pobre menina tola, acreditando que aquela carta traria seu príncipe encantado em cavalo branco. Ela podia ser aluna mais inteligente da sala, já tinha lido todos os livros possíveis para a sua infância, era hipnotizada por histórias de amor,  e a essa altura começara a se apaixonar pelos romances de José de Alencar. Com enredos de amores perdidos e tragédias. Se considerava bastante madura para a idade, mas nem todos os livros do mundo e toda maturidade além seriam capazes de desfazer seu nervosismo e inexperiência.


Chegou à fatídica rua com sua fiel escudeira. Retirou o envelope da bolsa, olhou para um lado e pro outro. Rezou, pediu a Deus que não aparecesse qualquer conhecido. Empurrou embaixo da grande porta de madeira. Correu. Correu como se correr fosse apagar toda ação feita anteriormente. Quando conseguiu sentar em um banco, finalmente distante de qualquer flagra. Remoeu na mente a ideia de que qualquer pessoa da família poderia abrir a carta, e não ele. Chorou em pensamento, enquanto a amiga apenas ria de seu desespero. Daquele minuto em diante, todos os segundos pareciam minutos, todos os minutos pareciam horas, e todas horas pareciam dias. Espera e paciência. Como se soubesse o que estava esperando. Aliás, sabia. Esperava a incerteza, essa foi sua única resposta. Nunca soube se alguém recebeu a carta, se alguém abriu, se o cachorro comeu ou o vento levou. Aprendeu com essa experiência a gostar despretensiosamente e anonimamente. Simplesmente gostar por gostar. Aprendeu a escrever para expor sentimentos mesmo que esses nunca cheguem ao seu destino, como aquela carta. Hoje ela só queria voltar no tempo, ter na mão a mesma esferográfica azul e nos ouvidos a mesma Mari de anos atrás (sem o marido e os dois filhos, agora) para lhe dizer o que fazer neste momento. Ela não tem mais o envelope, a folha decorada, e não sabe qual é a porta da casa desta vez. Ela só tem um desejo no coração e um endereço eletrônico nas mãos. E se dessa vez? “E” e “Se” são duas palavras tão inofensivas quanto qualquer palavra, mas coloque-as juntas lado a lado, e elas têm o poder de assombra-la pelo resto da sua vida. “E se”... E se? E se? (Cartas para Julieta)



Nathalie Maia


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Nathalie Maia


Jornalista por formação e contadora de histórias por vocação. São raros os dias em que um bom enredo não passa na sua cabeça. Apaixonada por um bom roteiro, de fi...

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