8
Fev , 2017

Você e mais nada


Categoria: Textos
A noite é realmente mágica?

Suspiro em frente a minha janela. O chocolate quente já esfria na caneca, é sempre agonizante, a paisagem coberta, a neve caindo, as crianças sorrindo e esperando o sono que no outro dia revela os presentes embaixo da árvore, a magia acontece. No meu país, ah o Natal é diferente, o clima é tropical, o peru às vezes até vira bacalhau. Tem ventilador ligado, e muito amor por todos os lados. Lá eu estaria ouvindo a Simone entoando seu hit reflexivo pela 1235 vez. “Então é Natal, e o que você fez, o ano termina e nasce outra vez.”


- O que você fez? O que você fez?


Eita, que até com a Simone eu vou parar pra refletir? Me pergunto todos os dias. Eu sou tão egoísta assim? Só porque eu não quero passar essa data sem você? Nós tínhamos tantos planos, tão certos feitos desde os nossos 15 anos, ainda antes do nosso primeiro beijo, quando erámos dois tolos adolescentes – nós já imaginávamos o nosso Natal na Big Apple, o sonho de morar fora, da nossa primeira árvore, nosso minúsculo apartamento, a neve, a bota na janela, os programas de TV ruins, a nossa noite, a nossa companhia, a nossa vontade, a nossa vida, nossa, nossa...tão somente nossa.


Tento esconder a falta de você, tento me esconder atrás das janelas. Cubro minhas olheiras no Skype com meus pais, no facetime com sua mãe então, quero mais é sair correndo.


Que ódio. Que raiva.


Porque o mundo te chamou justo agora? O quão egoísta eu sou, se disser que não queria que você aceitasse? Não tenho direito. É sonho, seu sonho de ser cineasta, o meu era só ter você. Me sinto pequena e vazia, perdida e sozinha. Sinto mais raiva, mais ódio, mais amor? Você mentiu por semanas e dolorosamente só falou que estava partindo quando já devia ir. Chorei, briguei e no final aceitei. Parece que agora, só me resta perceber, de que não era pra ser com você.


Saio um pouco dos meus devaneios, a casa esta uma zona, encontro tickets, vinho aberto, a última edição da Vogue já estraçalhada pelo Bogu, aliás, esse cachorro mal come depois que foi embora, se arrasta pelos cantos, se dizem que o cão se parece com o dono, aparentemente ele nunca esteve tão parecido comigo quanto agora. Meu celular toca, minha mãe insistindo para eu ficar online, e que ela pretende passar a meia noite comigo. Bem capaz. Insisto, repito.


- Mãe, eu vou dormir.


Uma, duas lá pela quadragésima segunda, ela entende e eu finalmente desligo. Coloco meu pijama, e lembro do cheiro de amora que saia dele quando compramos, foi motivo de piada por anos. Antes era amora, agora cheira só saudade. Estou prestes a deitar, quando minha campainha toca, deve ser algum vizinho atrás de comida e fofoca.                      


Uma espiada no olho mágico e nada, desisto de atender.


DING


DONG


Mais uma vez, abro sem pestanejar, e esbarro o pé em uma caixa, branca e rosa, um cartão com meu nome e uma fita bem escandalosa. O presente dentro me deixa sem palavras, uma joia, um coração, tão pequeno e tão lindo, tão a minha cara.


Abro o cartão, reconheceria aquela letra até minha velhice.


“O corpo aqui trabalhando, a cabeça toda em lembranças. Mas a única parte que me importa mesmo, tá inteira ai agora com você (quer dizer, talvez nem tão inteira assim, espero que o Fedex, tenha entregado direitinho). Lembrei das nossas tardes de Natal, esperando seu Tio Tadeu se vestir de papai noel, das voltas na mesa para roubar comida na ceia, dos beijos roubados, dos presentes trocados. Das nossas mães que ouviam a Simone  umas 110 vezes só naquela tarde. Lembrei dos planos, sonhos e tudo que vivemos juntos. (se você contar pra alguém que eu chorei, eu vou negar até morte – ok?). Lembrei que sou um estupido, idiota e provavelmente o pior deles. Mas lembrei que te amo, que se até os 365 dias do ano, terminam e querem recomeçar, eu também quero."


“O ano termina e nasce outra vez”, você aceita recomeçar comigo?


Eu espero que sim, porque esta mochila está pesada, eu dirigi muito na estrada e agora só quero te abraçar e mais nada.


O papel caiu da minha mão, assim como todas as minhas certezas sobre essa noite de Natal. Tudo que eu mais esperava estava ali na minha frente. Eu aceito você e não preciso de mais nada. 



Nathalie Maia


Jornalista, produtora e social media - Seja bem-vindo ao nosso infinito!

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Nathalie Maia


Jornalista por formação e contadora de histórias por vocação. São raros os dias em que um bom enredo não passa na sua cabeça. Apaixonada por um bom roteiro, de fi...

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