9
Fev , 2017

O rabisco do amor


Categoria: Textos
Qual o desenho da perfeição?

Eu sempre rabisquei todas as minhas vontades, ainda criança quando não sabia nem escrever eu já desenhava “um sonho de futuro”. Quando eu tinha cinco anos eu era uma aeromoça, alta, linda e com perfeita destreza para guiar todos aqueles passageiros. Aos oito eu desenhava todas as minhas aulas como professora, e me imaginava em uma grande sala falando para muitos pequenos alunos. Acho que eu me encantei muito quando aprendi a ler a escrever, tudo que antes eu materializava em forma de desenho agora já era possível registar na escrita. Que coisa incrível. Que mundo é esse tão poderoso que uma combinação de 23 letras pode dizer e mostrar tanto? É eu estava bem encantada.


Mas nem só de profissão vivia a minha “ideia” de futuro, em todos eles de uma maneira bem clichê eu imaginava você. Eu rabisquei várias vezes a minha casa, o quintal com um balanço amarelo. A persiana azul clara, o almoço de domingo, as crianças pulando na cama. O cheiro da feijoada enchendo a casa, e sua toalha em cima da cama. É eu era bem infantil, clichê e precoce. Mas eu imaginava você, eu queria que o dia da sua chegada fosse perfeito, sem atropelos ou exagero. Nosso primeiro encontro seria cheio de conversa e olhares. Em um restaurante lindo, eu implicaria com o seu prato, você comeria metade do meu, e no final teria guerra pela sobremesa. Depois da conta, eu tinha certeza que você pegaria na minha mão e não soltaria nunca mais.  


Seria incrível e tranquilamente fácil para te apresentar aos meus pais, meus amigos te amariam facilmente, e com a facilidade que você me conquistou tenho certeza que encantaria todos eles.  É eu sonhei tanto com isso, que em nenhum momento imaginei que o caminho desenhado por mim pudesse ser tão diferente. Quando você apareceu, eu não reconheci. Não entendi aqueles encontros, que mais pareciam desencontros desastrosos, não compreendi porque tinha vontade de falar com você na madrugada, mas fugia porque era difícil admitir que você fosse a pessoa certa. Demorei tanto para “abrir a guarda” que até você se cansou. Era um verdadeiro vai e volta de emoções quando eu parecia querer, você desistia. Quando você queria, eu não permitia.


Não tinha desenhado nossas dificuldades, o desemprego, os problemas familiares. Os nossos desentendimentos. O nosso término, ninguém me falou o quanto seria difícil não te olhar mais, e não sorrir a cada vez que você derrubava algo na sua camiseta (e olha que não eram poucas). Ninguém me disse que términos incluem muitos potes de sorvete, e horas fugindo das comédias românticas na TV. Na minha imaginação, nunca brigávamos, por isso foi tão difícil entender o frio na barriga cada vez que você voltava. Cada beijo na escada, cada falta de ar que só você me causava. Você veio marrento e brincalhão demais, alegre demais e criança demais para eu te reconhecer como aquele que eu tanto sonhei.


Hoje aqui sentada nesse carro preto com meu pai no banco de frente, segurando para não chorar a cada cinco minutos. Eu estou totalmente vestida branco, e antes de entrar nesta Igreja, para não perder o costume eu peguei um caderninho. Eu esperei tanto você, que fiquei cega por não perceber, que quem comanda a minha vida não sou eu, e que por mais que eu rabiscasse milhões de vezes os meus pedidos, o desenho vem do cara lá de cima, e depois de muito tempo eu entendi, que o desenho feito por ele é sempre melhor e mais perfeito do que qualquer rabisco meu.  


 



Nathalie Maia


Jornalista, produtora e social media - Seja bem-vindo ao nosso infinito!

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Priscila :
 A melhor descoberta!!! A vida sempre nos traz mais que nossos rabiscos... Que assim seja!!! Amei!!

Nathalie Maia


Jornalista por formação e contadora de histórias por vocação. São raros os dias em que um bom enredo não passa na sua cabeça. Apaixonada por um bom roteiro, de fi...

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