22
Fev , 2017

O último primeiro encontro


Categoria: Textos
Como acreditar e encarar?

Chego em casa apressada, retiro todas as roupas do armário e pronto não acho nada. Quem foi que teve essa ideia mesmo? Poucas coisas estressam me estressam mais do DR e TPM, levando a medalha de bronze dessa lista estão os primeiros encontros. Ah, a noite do primeiro encontro, ela deve ser linda, leve e divertida. Deve ser como nos filmes com o protagonista chegando, o som do carro funcionando, os pedidos prontos, um restaurante bonito e um beijo no final para dizer que nada foi perdido. Ah, isso até pode funcionar nos filmes do Woody Allen, mas a minha vida parece mesmo é um eterno filme com o Jim Carrey. Olho para o celular vibrando e vejo uma mensagem  - você já está pronta? – Esse menino só pode estar de brincadeira, faltam 20 minutos para o horário combinado, e eu nem de banho tomado. Escrevo que ele não conhece e que nunca estarei pronta no horário, mas já apago de imediato, é muita sinceridade nesses primeiros contatos né? Tomo um banho voando e arrumo o cabelo, penso em me maquiar, mas descubro que esqueci várias coisas na nécessaire do estágio, que espertona hein? Ele continua me mandando mensagens enquanto eu tento me arrumar, mas calma, menino, pra que a pressa? Nós já vamos nos encontrar.


Tento lembrar que há uma semana isso seria impossível de acreditar, quando ele chegou naquela aula de Química experimental com aquele ar todo de que "não estava nem ai" pra nada, eu já revirei meus olhos, os últimos três anos em uma faculdade de engenharia me proporcionaram muitos aprendizados, entre eles desconfiar de quase ou boa parte dos homens. Um comentário machista ali, uma sacanagem aqui, uma história do final de semana lá e meus ouvidos sempre servindo de pinico para o bando. No começo eu até respondia e retrucava, soltava verdadeiras lições de moral. Agora me limito a ignorar e se afastar de alguns deles.


Enfim, o caso é que ele chegou parecendo mais um, e até se juntou com alguns deles, e mesmo que eu falasse aos quatro ventos que pouco me importava que “a tribo” de machistas estivesse com mais um membro, no fundo eu sabia que ele não era como eles.  E nem me perguntem como, esbarramos no corredor algumas vezes ele soltava um sorriso de canto e um “oi” bem convencional, dia após dia e nossa rotina seguia bem normal. Já no final do semestre ele me encontrou na biblioteca, e me perguntou se eu tinha chorado, como negar que eu chorei com aquele nariz parecendo uma rena? Não consegui me segurar, e derramei umas poucas lágrimas na sua frente, eu estava escorregando muito em uma matéria e ao que tudo indicava o futuro dela me levaria muito em breve para uma reprovação. Ele pacientemente me ouviu, sentou ao meu lado e não deixou que eu desanimasse resolvendo qualquer exercício de Oxirredução, durante mais de quatro horas nem no celular ele encostou e todo tempo me encorajou a encarar todos os eletródos de frente.


Da quarta-feira passada até segunda o dia da prova, ele seguiu todos os meus passos, como se pudesse e quisesse fazer tudo entrar na minha cabeça, em alguns momentos trocávamos alguns olhares tímidos e ele até fazia algumas piadas ao pé do ouvido. No dia da prova, ele segurou minha mão antes de eu entrar na sala, e o abraço aconteceu três horas depois, quando eu sai com um papel na mão e um oito, prontinha para comemoração.


Ele que tomou a iniciativa, e apesar de bem desconfiada, entendi que ele fez tudo por mim sem esperar por quase nada. Sentada no sofá enquanto coloco minha sapatilha, lembro das últimas madrugadas de conversa e da ansiedade praticada durante todas as horas do estágio de hoje. Começo a sorrir igual uma boba, enquanto penso que não há motivos para correr mais, pra que se arrumar tanto para alguém que já até me viu chorar? Pra que ser diferente do que já sou ou já fui para ele? Porque a gente sofre tanto com primeiros encontros se eles deveriam ser o melhor de todos os acontecimentos que estão começando? 


Eu realmente não sei, mas depois dessa vez, estou bem disposta a aprender. Ouço a buzina, enquanto fecho a porta de casa. Encontro ele parado na frente do carro com uma florzinha na mão. Ele sorri, e eu mais ainda. Não quero mais ter medo, não quero mais desconfiar, quero acreditar mais, não quero me estressar mais com os primeiros encontros, aliás, pelo ritmo do meu coração acelerado, eu acho que esse será o último dos primeiro encontros. Eu pelo menos, estou torcendo que sim. 



Nathalie Maia


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Nathalie Maia


Jornalista por formação e contadora de histórias por vocação. São raros os dias em que um bom enredo não passa na sua cabeça. Apaixonada por um bom roteiro, de fi...

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