12
Abr , 2017

Quais sonhos você vai retirar da sua gaveta?


Categoria: Textos
Tudo que você já imaginou ser

Em um dia qualquer da década de 90, eu estava mais uma vez retirando as roupas do meu armário, esperando minha amiga chegar para mais uma tarde normal na minha infância. A música estava no ponto, o desodorante era microfone, o cabelo pronto pra bater e jogar para os lados. Era só entrar no guarda-roupa e abrir porta com rapidez e destreza (sempre um grande desafio para mim), dar o play no micro system enquanto minha amiga gritava – GRAVANDO!O hit era “Bailamos”do Enrique Iglesias, e nós passávamos a tarde assim na gravação imaginária de um clipe (imaginário também) de um ídolo latino brega.  Eu sei que a simplicidade tecnológica dessa infância sem internet ou TV a cabo fortaleceu um pouco a minha imaginação. As tardes ao som latino fazendo cenas que nunca foram gravadas – sim nem uma câmera de verdade existia – (e eu estou agradecida por isso nesse momento). 


Eu fiz de tudo um pouco quando criança, de aulas de balé a Tae-kwon-do, dança contemporânea, piano, teclado e coral. Cantei em festivais da canção (acreditem se quiser, e meu Deus isso tem gravado). Fui escoteira – montei muita barraca e aprendi a dobrar uma bandeira.  Eu declamei Drummond no pátio da escola e quase ganhei um concurso de poesias. Fui contadora de história. Escrevi muitas cartas para amigos, parentes e ídolos, a minha mesada praticamente toda ficava nos Correios. Sonhei em ser Chiquitita (ok é até injusto porque todo mundo sonhou). Sonhei em abraçar a Sandy e o Junior (já conheci a Sandy, falta o Junior, me liga amigo). Joguei muito vôlei usando o portão como rede, e até sonhei em fazer mais esportes quando me deparei com o Handebol na minha frente. Já pensei em ser professora ou advogada, mas provavelmente ninguém da minha família lembre, até porque desde muito cedo eu já dizia ser Jornalista. Eu já interpretei o Rabicó na peça de teatro da escola, chorando porque queria ser a Emília. Já dancei muito pau de fita na quadrilha e fui uma eximia vendedora de rifas.


Alguns (bons) anos já se passaram dessa infância divertida. E todas as vezes que eu paro pra pensar o quanto de coisas a minha imaginação me permitiu fazer e sonhar eu me pergunto onde essa Nathalie foi parar? Que escolhas ela fez na vida? Quem escolheu os sonhos que eu não realizaria? Porque eu não poderia ter sido advogada, lutadora de tae-kwon-do ou jogadora de vôlei? (esse foi a genética mesmo, não habemus altura). Quanto de Drummond me falta hoje, de talento para venda ou até das sabedorias do Rabicó? Eu sei, nossos gostos mudam nosso ambiente também. Já crescemos e nos sobra a obrigação de sermos aquilo que podemos ser, e aquilo que somos já é o melhor que podemos ser. Eu só queria refletir que em algum momento eu decidi ser aquilo que eu sou. Eu coloquei sobre a mesa aquilo que eu gostaria de realizar, e guardei na gaveta uma pilha de outras possibilidades – talvez incríveis – talvez não que eu poderia também poderia realizar.


Li um artigo da Unicamp sobre os jovens da geração Y, os nascidos até meados da década de 90 e sua eterna duvida entre realização financeira x profissional, e que a felicidade para alguns deles é igual expectativa – realidade. Encontro amigos assim ultimamente, temos longas conversas nos bares da vida, sobre insatisfação e infelicidade, conheço amigas tentando depois de cinco ou dez anos no mercado de trabalho mudar de área, fazer outros cursos ou simplesmente se encaixar naquilo que já não proporciona tanta felicidade, porque foi a escolha da sua vida, porque é seu sustento pessoa e financeiro. Será que muito dessa crise que vivemos não tem relação com os sonhos mais absurdos que guardamos no passado? Experimente retirar da gaveta tudo aquilo que você já imaginou ser um dia e coloque sobre a mesa. Quem sabe novas infinitas realidades e possibilidades apareçam e proporcionem recomeços. Se você já está feliz com o que escolheu, garanto que esse processo vai te render boas risadas, afinal não tem melhor lugar do que o tempo dos nossos sonhos infantis. 


Eu estou desengavetando os meus, e você quais sonhos vai retirar da sua gaveta hoje?


E ah, fiquem tranquilos, eu não vou sair cantando Enrique Iglesias por aí (embora tenha muita vontade) 


 


 



Nathalie Maia


Jornalista, produtora e social media - Seja bem-vindo ao nosso infinito!

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Nathalie Maia


Jornalista por formação e contadora de histórias por vocação. São raros os dias em que um bom enredo não passa na sua cabeça. Apaixonada por um bom roteiro, de fi...

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