17
Abr , 2017

Foi só você e eu


Categoria: Textos
Quem nunca se apaixonou no ônibus e não viu tudo acabar assim que foi autorizada a desembarcar?

Eu tento me equilibrar e quase escorrego mais uma vez. Praticamente todo final de tarde e o mesmo acontecimento, eu um ônibus e minha total falta de equilíbrio para passar o cartão, girar a catraca, segurar a bolsa e a pasta. Quando embarco você normalmente está sentado, sempre olha desconfiado e algumas vezes solta aquele sorrisinho meio de lado. Já faz alguns bons quatro meses que essa presença é constante, você e sua barba por fazer, seu fone de ouvido branco, a mochila cinza (que já foi preta) e algum livro aberto. Eu me lembro do primeiro dia que te vi, fazendo um aceno para o cobrador, tinha certeza que era um novo morador. Sua barba estava mais certinha, seu olhar era curioso de quem pouco conhecia. Enquanto você observava a janela, o livro aberto entre as pernas era esquecido, e eu sentada na lateral pensei em puxar assunto dizendo que ler Charles Dieckens no ônibus não é nada normal. Achei melhor não, eu não iria mesmo conseguir falar.


Em dois meses eu notei algumas mudanças, o cabelo crescido, o fio do fone de ouvido já bem desgastado, a mochila foi trocada e você leu seis livros nessa jornada. De Dieckens a C.W Lewis, de Harry Potter a Cao Xueqin, e eu fiquei com vontade de te dizer: “não leia isso, amigo” o "Sonho da Câmera Vermelha" pode até ser um dos livros mais vendidos do mundo, mas aqueles 400 personagens quase me deixaram tonta em tantas reviravoltas. Eu te observei alguns dias mais cabisbaixo e triste, olhar para o lado, sem livro ou fone de ouvido, notei quando não riu da piadinha do Sr. Romero, nosso cobrador com o Corinthians, quando não fez cara feia com a briga entre a passageira e uma amiga. No outro dia você apareceu com o nariz bem vermelho, cachecol e moletom e enquanto eu analisava se tratava de só tristeza ou solidão, você solta um espirro alto, me fazendo perceber que tudo não passava mesmo era de um bom resfriado. Já tentei descobrir aonde você trabalha, mas só encontrei poucas referências, então ativei todo meu modo stalker para nada. Já olhei escondida a sua playlist no spotify e só Deus sabe o torcicolo que eu tive pra tentar ler alguma coisa naquele celular, também já te vi jogando Sudoku, e a julgar pela demora a completar um quadro acho que esse não é para você um jogo adequado. Nos últimos meses não fiz outra coisa a bordo do amarelinho, se não, te analisar, muitas vezes pensei em me aproximar, logo quando alguém se atravessa para desembarcar. Eu queria saber seu nome e de onde vem, se gosta de livros tanto quanto eu, e se não quer meu fone de ouvido emprestado, é velho, mas pelo menos não está estragado. Algumas vezes sonho com a sua voz, quer dizer, sonho com muitas coisas entre nós. Mas a voz é algo marcante, talvez porque em meses eu só ouvi poucos sussurros. Nos meus sonhos você toca violão, é professor e se mudou de alguma cidade do interior. Nele sempre conversamos muito e corremos pela grama do quintal no futuro. É louco eu sei, mas quem nunca se apaixonou no ônibus e não viu tudo acabar assim que foi autorizada a desembarcar?


Entro no veículo em mais um final de tarde chuvoso, tento equilibrar a bolsa, o guarda-chuva e o mal humor daquele inverno tão frio e cinzento, assim que me sento e seco meu pé ensopado percebo que ele não está no ônibus. Olho mais rapidamente e nada, fico um pouco assustada, poucas vezes isso aconteceu nos últimos tempos, e já penso que talvez eu realmente nunca mais o veja, e que fui muito tola por não tentar trocar uma palavra. Lamento e sinto que alguém sentou do meu lado (e tudo bem, o banco estava mesmo vago). Me distraio com uma criança brincando na poça da chuva, esqueço por segundos que estou triste quando vejo o menino sorrindo e a mãe o puxando pela orelha brava com a travessura. Começo a sorrir e escuto: 


- Você fica bem melhor sorrindo, Marina.


Oi? Como? É uma espécie de delírio depois de um dia ruim? Ele estava ali, sentado ao meu lado, sentado no banco ao lado, repito sentado ao banco ao lado e falando comigo, e ainda falando o meu nome? Mas como? Faço total cara de surpresa e assustada, e devo ter feito muito mesmo, porque ele soltou uma gargalhada.


- Como você sabe o meu nome? Se eu nem sei o seu? (sim, de todas as frases no mundo que eu poderia falar nessa hora eu solto essa, podem me julgar – porque eu mereço).


- Me parece que eu sou mais eficiente que você então mocinha. Ele fala enquanto solta outro sorriso enigmático e uma piscadinha.


- Rodrigo, prazer. Eu ia começar perguntando se você vem sempre aqui, mas acho que já passamos dessa fase não é mesmo? Consigo relaxar um pouco e perceber no seu sorriso que ele também esta nervoso. Sorrimos juntos, nos olhamos novamente, e depois de tanto desviar eu finalmente consigo te olhar, e aquele momento não tinha mais qualquer passageiro, foi só você e eu. Depois de um tempo percebo que está chegando o seu ponto e pergunto se não é a hora de desembarcar, ele me olha novamente solta outro sorriso de lado e diz: - Hoje não, hoje eu vou te acompanhar. 


 


 



Nathalie Maia


Jornalista, produtora e social media - Seja bem-vindo ao nosso infinito!

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Michele Marriel :
 Adorei tem continuação
Priscila Trigo :
 AMEI!!!! QUE DELICIA DE LER!!!!!!!!!!!!!!!!! SORRINDO AQUI!!! QUE FOFOS!!!!

Nathalie Maia


Jornalista por formação e contadora de histórias por vocação. São raros os dias em que um bom enredo não passa na sua cabeça. Apaixonada por um bom roteiro, de fi...

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