16
Jan , 2018

A libertação do verão


Categoria: Nosso Infinito
A história de como eu me libertei do medo de usar biquíni 15 anos depois

Eu olhei para o espelho pela décima vez, queria ter a certeza que tudo estava certo, sem nada aparecendo demais, ou escondendo de menos. Aliás, se fosse possível esconder tudo, ou desistir da ideia, talvez seja muito melhor! Lá fora do provador, minha mãe e minha irmã esperavam impacientes.  E eu apavorada sem me reconhecer. Lá no fundo meu inconsciente gritava: “é só uma peça de roupa”, quanto drama! Mas dentro de mim, eu sabia que era mais do que uma simples dúvida sobre comprar ou não comprar.


Há exatos quinze anos eu não colocava um biquíni no corpo, e só o fato de lembrar a data exata da ultima vez que isso ocorreu, eu acho que já demonstra um trauma grande o suficiente, não é mesmo? Eu me lembro exatamente quando cheguei para a minha mãe e disse: “só vou para a praia se eu comprar um maiô”. Era verão dos anos 2000 no auge da moda dos piercings na barriga de fora, calças pantalonas com blusinhas curtas que lotavam as capas da Capricho (a grande referências de adolescentes da época). Eu tinha 12 anos, e passeava com uma amiga, quer dizer, não era uma super amiga, mas eu me esforçava para sentir que isso fosse uma grande verdade, ela era uma das meninas mais lindas da minha cidade, cheia de meninos atrás dela o tempo todo. Quando paramos em uma feirinha e na frente de uma barraquinha de biquínis eu olhava curiosamente, quando ela fala: “eu não tenho coragem de usar biquíni”, eu assustada prontamente respondi: “não?”, e ela com mais cara espanto respondeu: “porque, você tem?”.


Bingo!


E eu, queria dizer que sim, até porque, mesmo tendo sofrido tanto na infância e estar iniciando aquela fase adolescente, eu me considerava muito criança ainda. Que mal existe em ir a praia (morando nela inclusive) usando qualquer coisa?


Mas adivinhem o que eu disse?


“Não, é claro que não...” – com total cara de indignada, como se ela tivesse desconfiado de algo tão obvio!


Mudei rapidamente de assunto, tentando esquecer aquele momento. Que dúvida, que foi possível, até hoje sou capaz de lembrar as roupas que usávamos nesse dia. Depois disso, eu consegui usar biquíni ainda uma vez, depois de emagrecer quase 14 quilos, e ter experimentado remédio para emagrecer. Foi na minha viagem de formatura da oitava série, e lá eu estava com o peso dos meus sonhos, com o corpo que eu queria, com meus amigos e curtindo 10 dias de praia. Quando voltei, logo percebi que eu tremia muito tomando os remédios, e graças a Deus e a meus pais tive a sensibilidade de parar na hora certa. Desde então, o acessório praiano de maior sucesso do verão, símbolo de transgressão em movimentos políticos e sociais na década de 60, nunca mais entrou no meu armário, é obvio que muito menos no meu corpo.


E você que esta lendo isso, pode achar que tudo isso é besteira. Que uma frase tão pequena, vinda de outra criança possa marcar tanto alguém. Mas acontece, depois desse dia, eu assumi um discurso na adolescência: “eu não gosto muito de praia...” – e passei a ir nela somente no inverno para caminhar, cheguei a passar 3 anos sem colocar os pés na areia do verão. E não era uma maluquice da idade, ou tão pouco eu que passei a odiar o mar, morando há menos de 1km dele. Eu não queria me expor mais, eu não queria ter que passar por toda a situação de ser questionada ou olhada por desconhecidos, mas pior ainda, por amigos.


Esse dias eu respondi para o humorista Mauricio Meirelles nas redes sociais, que piada com gordo não me incomodam tanto quando ouvir minhas amigas, conhecidas, colegas de trabalho falando sobre perder míseros dois quilos, e como se sentem gordas com sei lá, 20 quilos a menos do que eu. Eu mesmo faço piada sobre isso o tempo todo. Acho que o humor tem essa capacidade de extrair e até tratar certos traumas, de maneira leve, com ele é possível expor algumas coisas que antes ficaram escondidas, e ferida exposta tem muito mais chances de cicatrizar.


Mas eu sei que as minhas amigas estão também no dilema, sociedade x auto estima, beleza x vida fitness. E que todas sem exceção, só querem ser mais felizes frente ao espelho, não é culpa delas que o mundo imponha um padrão, e como diz a jornalista Daiana Garbin: “Estamos aprisionadas dentro dos nossos próprios corpos”.


Mas não foi para falar da minha prisão que escrevi esse texto, e quero voltar para a minha visita ao provador da loja. Como eu estava demorando, a vendedora veio perguntar se estava tudo bem. E para ajudar abriu o provador me olhando, e se tem algo que eu não queria era isso. Eu já fiquei imaginando o olhar de cima a baixo, a censura, o risinho na cara. Mas não, ela olhou, perguntou se estava tudo bem. Ainda disse que tinha ficado ótimo, e era super simpática, e sinceramente me pareceu honesta me ajudando a ajustar a alça e não me empurrando o mais rápido possível para fechar a venda.


Eu comprei, e coloquei na mala para a viagem do ano novo. Já sai feliz, achando que tinha dado um grande passo. Usar já seria “outros 500”, mas a primeira parte da vontade tinha sido cumprida com sucesso. Eu queria me libertar de tudo aquilo que me prende nessa condição de autoestima, isso inclui me achar menos ou menor, menos realizada, amada ou pronta para ser feliz..


E agora você deve estar curioso com o final da história, e eu vou confessar a verdade, eu mal tive tempo de lembrar todo o sofrimento, ou preocupação de antes. Eu estava cercada de pessoas que eu amo, brincando na agua, comendo uns frutos do mar e tomando sim, uma cervejinha! Passando o último dia do ano em uma praia linda e não tinha porque me sentir mal, e pra falar outra verdade eu estava me sentindo bem mais bonita do que os meus maiôs, voltei da praia com vontade joga-los fora e comprar outros três pares de cores diferentes, lá pelo meio da tarde enquanto olhava o horizonte, observei as pessoas em volta, aquelas que por anos eu julguei que me olhariam com extrema repulsa. E quer saber o que eu percebi? Que elas também estavam felizes, curtindo seu dia de praia com os filhos, amigos e familiares. Pode ser que algum dia alguém realmente me lance esse olhar? Não sejamos “Poliana”, é bem possível ainda.


O importante é que agora, a minha escolha é não deixar de fazer nada que possa me colocar na situação de inferioridade, só por conta de um corpo, que pode não ser bonito para os padrões da sociedade atual, mas que é saudável (graças a Deus e adequado para que eu leve toda a minha vida).


 


Se você se sente, ou já sentiu assim, pensa, reflita, converse e peça ajuda, como eu diversas vezes pedi e ainda peço. Estamos lutando por um mundo mais justo para todas nós, mas isso só vai ser possível quando por dentro estivermos livres dos medos que tanto nos assolam!


Seja aquilo que você quer ser!


Use biquini e filtro solar também (valeu Bial!) 


P.S – O Infinitas está de volta, como vocês podem perceber e pronto para conhecer todas as realidades! Vem ser infinito!


 



Nathalie Maia


Jornalista, produtora e social media - Seja bem-vindo ao nosso infinito!

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Nathalie Maia


Jornalista por formação e contadora de histórias por vocação. São raros os dias em que um bom enredo não passa na sua cabeça. Apaixonada por um bom roteiro, de fi...

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