24
Fev , 2018

Malhação - As infinitas realidades da diferença


Categoria: Textos
Um pouco de ficção por favor!

Eu sou da geração Malhação, e que adolescente do início dos anos 2000 não era, não é mesmo? Apesar do bom entretenimento e dos finais de tarde na frente do sofá, eu poucas vezes senti representatividade na novelinha teen. Era comum um desfile de belas meninas com seus fichários e cabelos arrumados e de galãs que lotavam os pôsteres de revistas, capas de caderno e circulavam como príncipes nos bailes de debutantes pelo Brasil.


É bem verdade, que alguns bons temas foram tratados ao longo dos anos, como alienação parental, erro médico, distúrbios alimentares, por diversas vezes gravidez na adolescência e até pioneirismo ao colocar um personagem jovem com HIV para debater esse tema.


Por esses e outros motivos me vi particularmente curiosa com a estreia dessa temporada, com a promessa de celebrar a diferença. Vão se os casais principais, os romances impossíveis e contos de fada, a proposta do autor Cão Hamburguer é ousada, apresentar cinco meninas e um enredo de protagonismo juvenil através do olhar dessas realidades tão distintas.


O que poderia ser totalmente estranho, já que o que as uniu, é uma situação pra lá de inusitada, um parto no metro, e a história daquelas adolescentes se entrelaçam para juntas celebrar, discutir e revelar o poder da juventude. Viva a Diferença conta com muitos favores para o sucesso, a direção brilhante de Paulo Sivestrini, o texto pra lá de afiado e antenado do Cão e as ótimas atuações das "five" Tina (Ana Hikari), Keyla (Gabriela Medvedovski), Lica (Manoela Aliperti), Ellen (Heslaine Vieira) e Benê (Daphne Bozaski)


Sem contar os veteranos que dão um show na tela, com os destaques para Malu Galli,  Marcelo Antonny, Ana Flavia Cavalcante, Mouhamed Harfouche  Lucio Mauro Filho na sua melhor forma e a Aline Fanju no melhor papel da sua vida.


As infinitas possibilidades de enredo realmente trouxeram Malhação para o centro da discussão, a gravidez na adolescência de Keyla tratada com pé no chão, a rigorosidade da família de Tina e a diferença entre a cultura e o preconceito. A rebelde e patricinha Lica e sua família desmoronada foi um personagem cheio de nuances e situações pra lá de inesperadas. A inteligência de Helen e a vida dura familiar de quem rala dia a dia para conseguir um lugar ao sol.


E por fim a Benedita, e pra falar dela que eu me motivei a escrever esse texto. A Benê é o estereotipo “anti-malhação” de toda escola da novelinha dos últimos anos. O talento de Daphne Bodazsky foi emprestado para dar vida a uma personagem com TEA – Transtorno do Espectro autista. E ela chegou pronta para causar “estranheza”, a menina que tem dificuldades de socialização e amigos, se vê motivada a participar daquele grupo de cinco e apadrinhar o menino que ela ajudou a colocar no mundo. No começo é tudo novidade e desconfiança, eu me lembro de uma cena dos primeiros capítulos em que reuniram as mães das meninas para comentar as diferenças dessa amizade e os benefícios que ela poderia trazer para cada uma.


A Benê teve um caminho muito bonito e particular de descobertas, o bullying na escola, as corridas matinais, os surtos de desespero com as situações inesperadas, a descoberta do talento para a música e a primeira vez que ela entrou no mar, revelando umas das cenas mais poéticas e bonitas que já foram ao ar na televisão brasileira.


Eu sempre achei que a ficção não deve ter compromisso com a realidade, que ela sempre existiu e existira única e exclusivamente como fruto de uma mente imaginária, então nunca fui da patrulha do politicamente correto do absurdo que solta todos os dias as frases clichês: “mas isso só acontece em novela”, ou a “A Nina não salvou no pen-drive” (lembrando a fatídica situação que gerou revoltas em Avenida Brasil). Mas em contrapartida eu sempre achei também que a telinha nunca deveria prestar um “desserviço” para a população, ao retratar um problema de saúde ou uma doença, as informações têm que ser sim as mais claras e contundentes possíveis, deve ser cuidar com as caricaturas e estereótipos, evitando ao máximo que aquela audiência, principalmente da Rede Globo que chega a tantos extremos do Brasil entendesse da maneira equivocada o problema.


E neste ponto, nota 10 para a construção de Cão Hamburguer, e nota 100 para o talento de Daphne que soube medir o tom certo da personagem. Por viver um pouco mais de perto a situação do autismo nos últimos anos, essa personagem tocou fundo no meu coração. A cena que motivou esse texto me levou as lágrimas na última sexta-feira, dia 23 – em que a Benê conta para o pai que aparece após anos de abandono sobre o seu problema, com o didatismo pertinente e toda a emoção inserida no momento a Benê revela que ao longo dos anos os psicólogos descobriram que ela é asperger, um estado do espectro autista e que entender isso foi muito bom. Quando o pai a questiona como isso poderia ser bom, ela vem com a maior lição possível: “Eu descobri que eu sou como todo mundo, e que cada pessoa tem seu jeito de ser, e mesmo que eu pareça esquisita porque eu tenho a minha maneira de ver ao mundo, esse é o meu jeito de ser...”


E se tem alguma duvida que o ciclo dessa Malhação vai se encerrar celebrando todas as diferenças? Obrigada Cão por esse texto, tão lindo, tocante e profundo e por tratar o autismo com respeito e amor que a situação merece.


Obrigada Benê por representar tantas pessoas diferentes, e por celebrar os sentimentos.  Nós somos feitos da mesma carne e matéria, temos as mesmas dores, alegrias e sofrimentos. Aquela menina de outrora no sofá, amou viajar nesse mundo, e perceber mais uma vez que somos seres infinitos dentro das nossas várias realidades.


“Eu sou uma autista com habilidades para fazer muitas coisas e isso não é uma doença é uma diferença humana”.


Viva a Malhação, vida toda e qualquer diferença!


Comento a cena no stories do Infinitas! Vem acompanhar com a gente: @infinitasrealidades


 



Nathalie Maia


Jornalista, produtora e social media - Seja bem-vindo ao nosso infinito!

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Nathalie Maia


Jornalista por formação e contadora de histórias por vocação. São raros os dias em que um bom enredo não passa na sua cabeça. Apaixonada por um bom roteiro, de fi...

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