6
Mar , 2018

Os delírios de Ana Julia


Categoria: Nosso Infinito
A primeira vez

Essa era noite do meu primeiro teste de ballet, quer dizer o primeiro “grande” teste para uma companhia. Eu tentei dormir cedo, ou melhor, estou tentando ainda, mas a cabeça não para. Eu já fiz todo ritual, tomei um banho demorado, sequei o cabelo e tomei uns 20 litros de chá de camomila que minha avó trouxe. Parece que nem a pobre da erva está dando conta da minha pessoa, que fase Ana Julia, que fase!


Eu só tenho 13 anos e parece que eu sinto o peso do mundo nas minhas costas, e olha que nem uma mochila estou carregando. Enquanto olho para o celular e respondo um meme qualquer no grupo da sala, eu fiquei pensando sobre “a primeira vez”, quer dizer, a primeira vez que fazemos qualquer coisa. Porque tem que ser tão difícil? A primeira vez que vamos à escola, o primeiro tombo na bicicleta, a primeira vez que você fala em público, primeiro sutiã, primeira menstruação, o primeiro beijo. Alguns sofrem mais e outros menos em cada uma dessas situações, mas inevitavelmente todo tem algo para contar de um mico, uma catástrofe, ou até de um trauma de uma das nossas “primeiras vezes”, eu tenho praticamente um para cada um deles. No meu primeiro dia de aula, eu fiquei tão nervosa que fiz coco na calça, sim enquanto a professora levava a pobre criança de 5 anos de idade para o banheiro e a diretora ligava para o meu pai questionando os meus problemas intestinais eu era apelidada de “fedidinha”, e tive que aturar esse apelido tão maravilhoso até o final do jardim III, dois anos depois, quendo mudei de escola, com a sorte de Deus e muito choro da minha parte.


Meu primeiro tombo de bicicleta também. Você deve imaginar, bicicleta um meio de transporte tão tranquilo, praticamente um brinquedo de tão inofensivo. Não, quando seu pai te larga na beira de um campo cheio de arvores e você não consegue frear e ele não consegue te alcançar e você cai com a cara literalmente em uma árvore centenária. O resultado dessa primeira aventura? Três injeções, um gesso no braço e uma bronca da minha avó por meu pai ter me deixado em um lugar nada seguro.


A minha “última” primeira vez (será que é certo escrever assim?) foi há dois dias, depois de correr por umas três vezes, eu fiquei sozinha com o Matheus no ensaio do teste, que ele também vai fazer, nos aproximamos muito, é verdade. E eu aquela menina que não pensava muito sobre isso e nem “crush” platônico por cantor da TV carregava, me vi ali encantada com todo apoio que ele me deu, e ele sem pedir nada em troca – não fez nenhuma tentativa mais ousada, digamos assim, deve ter desistido, depois que eu louca fugi por três vezes (podia até pedir música no fantástico). Então depois de repetirmos a mesma sequência por oito vezes, e ele elogiar meu desempenho, eu fui lá e tomada de uma coragem que nem eu sei da onde veio, me aproximei e dei um beijo nele, e aquele instante foi tão mágico, bonito e especial que me faz entender um pouquinho, porque não nos preparamos para as “primeiras vezes”, imagina que graça teria sentir antes tudo aquilo?


Não, eu nunca teria a coragem se não fosse para experimentar algo novo (e que meu pai não leia esse texto, eu acho que o Dr.Ricardo não está muito preparado para que a filha dele toma iniciativas por aí). Pois é, as primeiras vezes acontecem para nos mostrar que sempre é bom não saber o que esperar daquele momento.  


Agora eu vou dormir, porque já delirei bastante e amanhã uma nova primeira vez me espera, assim como todo o resto da minha vida inteira.


 


 


 


 



Nathalie Maia


Jornalista, produtora e social media - Seja bem-vindo ao nosso infinito!

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Nathalie Maia


Jornalista por formação e contadora de histórias por vocação. São raros os dias em que um bom enredo não passa na sua cabeça. Apaixonada por um bom roteiro, de fi...

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