13
Mar , 2018

Os delírios de Ana Julia


Categoria: Nosso Infinito
O que você faz depois de um segredo deixar de ser?

Estou sentada em frente Marta, nossa diretora, eu que até então, só frequentava aquelas cadeiras para receber elogios, hoje não iria ouvir qualquer adjetivo (qualquer bom, eu quero dizer né, os ruins - é bem provável que sim)


Na cadeira ao lado o Matheus com as mãos no bolso e cabeça quase enterrada no pescoço, ao lado dele a sua mãe - uma mulher linda e jovem, diretora de uma grande empresa. Enquanto batia os saltos no chão, a todo o momento olhava no celular e digitava mensagens com total destreza.  


O silêncio é constrangedor, que belo momento para conhecer a mãe do crush hein Ana Julia? Só que não!  


Enquanto esperamos o meu pai, que pra variar estava atrasado, eu tento relembrar o que me trouxe até aqui, nesta situação tão embaraçosa. 


Eu sempre gostei de segredos. Sim, sempre fui à amiga mais confiável para guardar qualquer confidência. E ah, se engana quem pensa que eu esqueço completamente e por isso sou a pessoa mais adequada para guardar a sua revelação. Não, eu lembro e ainda uso de todo o meu conhecimento para poder ajudar. 


O fato é que eu gosto tanto de guardar um bom segredo, que os meus não escapam dessa lógica, mas tem segredos meu bem - que aos 13 anos na era das redes sociais são praticamente impossíveis de esconder. 


Eu e o Matheus decidimos não contar para ninguém sobre o nosso beijo (ok sobre os nossos beijos.. er, eu confesso). Mas nós não somos namorados nem nada, eu acho, na verdade. Enfim, assunto para outra hora. 


Eu convenci o Matheus que era melhor assim, sem ninguém ficar sabendo, eu não contei para o meu pai (e agora eu prevejo ele entrando bufando por essa porta), nem para a minha avó. Apesar de eu ter quase certeza que ela já sabia, têm segredos que são fáceis de esconder, um presente novo, uma nota alta na escola, uma surpresa de aniversário, mas quando se está apaixonada - ah, parece ser bem difícil.


Euzinha mesmo andava suspirando pelos quatro cantos, e isso não passou despercebido por Dona Albertina, que tratou logo de perguntar: - tá lendo poesia, tá apaixonada né menina?


Eu hein, não se pode mais nem ser sensível em paz nessa casa.


Segui no jogo da negação (a parte bem feia da mentira), aquele segundo estágio em que alguém já descobriu a verdade e vem te perguntar e você faz uma cara de indignada, de mocinha de comédia romântica, de camponesa perseguida feito Marina Ruy Barbosa na novela das 19h. Foi isso que eu fiz quando a minha melhor amiga veio falar comigo. Que ERROR, mentir para a Vivi foi uma das coisas que mais me arrependo, eu não queria me abrir e não estava sabendo como agir e na hora achei melhor não falar, é um problema que com certeza eu ainda vou ter que resolver.  


Mas estamos em 2018, que ilusão a minha que alguém não descobriria, e foi quando no intervalo entre a aula de educação física e volta para a sala que nós paramos atrás do deposito, e naquele instante, tomados pela bobeira de dois adolescentes sem raciocínio logico, nos beijamos. 


Eu não preciso nem contar que alguém viu.


Não, eu não preciso contar que alguém viu e fotografou.


E ah eu já contei que enviaram no grupo da escola com todos os meus professores e a diretora?


Pois é, enviaram.


E agora 40 minutos de sermão, uma aula sobre adolescentes e exposição nas redes sociais, um pai fortemente desapontado pela falta de confiança, duas advertências e um olhar de: porque vocês não nos contaram?  Estamos saindo da diretoria, sem saber muito como agir daqui pra frente.


Eu que sempre fui a rainha dos segredos, me vi perdida da com a sensação da exposição, de tanto brincar de me esconder, acabei sendo motivo de piada.


Como diz uma música que eu gosto muito: “segredo é assim, mas vale jogar no ventilador”


O meu se espalhou via pacote de dados, e agora era hora de saber, o que você faz depois de um segredo deixar de ser?


 


 


 


 


 



Nathalie Maia


Jornalista, produtora e social media - Seja bem-vindo ao nosso infinito!

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Nathalie Maia


Jornalista por formação e contadora de histórias por vocação. São raros os dias em que um bom enredo não passa na sua cabeça. Apaixonada por um bom roteiro, de fi...

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